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Embaixadores da região [Beirões pelo mundo]
Maestro Luís Cipriano

BEM HAJA - Como nasceu a sua paixão pela música?
MAESTRO LUÍS CIPRIANO - Estas coisas, quando nascem connosco, não sabemos que nasceram, mas vão-se manifes- tando. Eu lembro-me que em pequenino, tudo aquilo que desse som era utilizado por mim, gostava imenso de tirar sons de tudo o que era sítio. Depois quando fui para o ciclo (5º ano), felizmente já havia a disciplina de educação musical e foi aí, logo na primeira aula, que percebi que não havia dúvidas nenhumas… era aquilo!!!

A partir daí ficou sempre definido, nunca houve  hesitação… aquele será que???

BEM HAJA – A partir daí, até aos dias de hoje, foi sempre uma constante evolução?
MAESTRO LUÍS CIPRIANO - Sim, depois, entretanto fui para o conservatório. Foi um grande esforço dos meus pais, o conservatório na altura era caro. Tinha 16 anos e os meus pais acabaram por me comprar um piano, naquela altura comprar um piano era complicado, mas foi uma aposta que eles fizeram em mim.

Eu tenho por hábito considerar os meus pais uns Heróis. Porque, ainda hoje, há uma grande dificuldade em aceitar que uma criança siga uma carreira musical.  Socialmente isto não mudou rigorosamente nada… Já tive pais que me disseram: “Ah o meu filho seguir música, mas ele tem tão boas notas…”. E perdem-se imensos talentos por isso…

Ao princípio não foi fácil, comecei logo a descer as notas… os 17 e os 18 já só podiam aparecer na coluna das faltas… (risos)! Eu só queria era estudar música… Tive de fazer um acordo com os meus pais e passei a ser um aluno de 10 e 11, não queria mais.

BEM HAJA – Fez muitos sacrifícios?
MAESTRO LUÍS CIPRIANO - Sim, quando fiz o curso superior de composição, tinha que ir ter aulas a Lisboa, eu apanhava o comboio de mercadorias em Castelo Branco à meia noite e chegava a Lisboa às 11 da manhã, tinha duas horas de aulas e voltava ao comboio às 15 horas e chegava à meia noite a casa, portanto para se aguentar uma coisa destas tem de se gostar muito. E, passados estes anos todos, eu não me lembro de nenhuma viagem chata, porque eu ia para aquilo que queria. Se me metessem nesse comboio para ir ter uma aula de matemática, no Fratel já estaria a saltar cá para fora, com toda a certeza.

BEM HAJA - Foi por causa das suas vivências que criou a Associação Cultural da Beira Interior e promove projetos que proporcionam às crianças esta experiência da música?
MAESTRO LUÍS CIPRIANO - Os projetos sociais que temos aqui, estão ligados a crianças que têm dificuldades económicas, mas também às crianças que têm dificuldades culturais. Uma criança que vive aqui numa aldeia na serra, até pode ter dinheiro, mas não tem oportunidade e nós vamos buscar essas crianças à escola, trazemo-las aqui, têm ensaios e vamos novamente pô-los à escola. Temos aqui na Covilhã, no Tortosendo, no Fundão e no concelho do Sabugal, são crianças do meio rural. Este projeto é apoiado pela fundação Gulbenkian.

BEM HAJA - Conseguem motivar as crianças?
MAESTRO LUÍS CIPRIANO - Sim, sim, estão todas motivadas. Até porque têm de ter resultados escolares, não podem reprovar, se não, são afastados do projeto. Não podem faltar a ensaios, têm de trabalhar. Ou estaríamos a criar uma geração que tem tudo de mão beijada e depois não dão valor a nada. Isso connosco não acontece, ou produzem ou vão embora. Eles sabem que as condições são estas, é o retorno que dão. Os projetos têm de ter resultados… Por exemplo no coro misto, devemos ser o coro em Portugal com mais prémios internacionais e isso deve-se ao rigor. Dos trinta elementos, apenas quatro sabem música, mas trabalham muito, não há milagres. E isto, é na música e em todo o lado.

BEM HAJA - Como é que surgiu a necessidade de criar a Associação Cultural da Beira Interior?
MAESTRO LUÍS CIPRIANO - A associação foi criada de uma forma muito engraçada. Uma das coisas de que mais me orgulho na vida, é dos sítios de onde já fui despedido, porque me fizeram evoluir muito.  E a associação foi criada na sequência de um despedimento em massa do coro da Covilhã… Fundámos, então, a associação Cultural da Beira Interior. Agora preocupa-me que já não sou despedido há muito tempo, se calhar não tenho evoluído o suficiente (risos).

BEM HAJA - Também é professor do ensino público, correto?
MAESTRO LUÍS CIPRIANO- É o único emprego que tenho, sou professor do estado na Escola Serra da Gardunha no Fundão, a melhor escola do país. Já passei por várias escolas, também estive muitos anos destacado, mas depois o governo acabou com os destacamentos e agora tenho horário completo. E ali descubro muitas crianças porreiras que depois acabo por inserir nos projetos. Gosto muito do que faço.

BEM HAJA - Sei que tem um orgulho imenso, pois dos seus três filhos, dois estão ligados à música. Pensa que foi uma influência do pai e da mãe?
MAESTRO LUÍS CIPRIANO - Claro que sim! Em primeiro lugar tinham de ter talento se não, não conseguiam. Mas também eles cresceram assim, não se lembram de ser de outra forma. A minha filha mais velha, por exemplo, quando nasceu, eu estava a terminar o Curso Superior de Composição e a minha mulher o Curso Superior de Piano, só tínhamos um piano que partilhávamos, 5 horas cada um.

BEM HAJA - Tem sido premiado pelo mundo inteiro, viaja muito, existem muitas diferenças entre Portugal e os outros países?
MAESTRO LUÍS CIPRIANO - Sim, muitas. Essencialmente no que diz respeito à organização. Tenho um amigo no Luxemburgo que diz: “no dia em que vocês utilizarem as capacidades que têm para improvisar, para organizar, serão imbatíveis”.  Não é normal a desorganização, se eu somar as horas que passo à espera para ser recebido em Câmaras Municipais, ao longo de um ano, tenho tempo suficiente para produzir uma grande quantidade de obras para as crianças. Do ponto de vista cultural, as pessoas queixam-se muito de dinheiro, os organismos não têm dinheiro para nada. Não há dinheiro para equipar as escolas, mas depois gastam-se 60 mil euros num artista qualquer. Por isso não é falta de dinheiro, poderá ser falta de inteligência, falta de cultura, falta de vontade… Poderá ser tudo, mas falta de dinheiro não é.

BEM HAJA - Quando dão concertos, há falta de público?
MAESTRO LUÍS CIPRIANO- Não não, pelo contrário, o concelho de Mação, aqui há tempos, fez um projeto connosco em que o coro foi cantar à missa. Porque os compositores do séc. XVIII, quando compunham não era para se fazer concertos, era para se fazer na cerimónia, as igrejas tinham orquestras e tinham coros e então nós fomos fazer a missa com o padre para as pessoas saberem como era uma missa no século XVIII.  Fizemos 4 missas no mesmo dia, na primeira missa a igreja não estava muito cheia, estava composta, mas a partir daí, as pessoas metiam-se no carro e iam à próxima aldeia. Na última missa, havia mais gente cá fora que lá dentro, porque não cabiam. O que significa que no meio do pinhal, também se gosta de Mozart, mas se nunca lhes dermos Mozart, eles nunca vão gostar, porque não conhecem.

BEM HAJA - Foi recentemente à Coreia do Norte, e é requisitado frequentemente para trabalhos no estrangeiro, é mais acarinhado e mais valorizado no estrangeiro que em Portugal?
MAESTRO LUÍS CIPRIANO - Olhe, por exemplo, isto de ter ido à Coreia do Norte, se tivesse sido um Maestro de Lisboa ou do Porto, tinha sido um alarido incrível. No ano 2000 eu fui o compositor escolhido pela Palestina para compor a obra que assinalou os 2000 anos de Cristo no local onde Cristo nasceu, foi transmitido por 47 cadeias de televisão, nenhuma portuguesa. Aqui mal se falou nisso… O reconhecimento é muito pouco, e vou dar mais um exemplo, o Coro Misto da Beira interior, depois de 27 anos de existência e 16 prémios internacionais, foi apoiado pelo Ministério da Cultura para ir à Polónia, mas no final, nem um email de felicitações às pessoas… Nada. Quando editámos o primeiro CD, quisemos lançá-lo em Portugal com concertos gratuitos. Ligámos para as câmaras, sempre grandes problemas. Até que recebemos um convite da Universidade Interamericana de Porto Rico, fomos lá lançar o CD. Tem sido assim… E já estamos habituados a ser bem tratados lá fora.

BEM HAJA - Gostava que fosse de outra forma?
MAESTRO LUÍS CIPRIANO - Sei que as coisas seriam diferentes se eu não dissesse sempre o que penso, mas há uma coisa que para mim é fundamental, que é acordar satisfeito comigo mesmo.

BEM HAJA - O facto de estar no interior condicionou de alguma forma a sua carreira?
MAESTRO LUÍS CIPRIANO - O facto de eu estar no interior não é impeditivo de nada, tenho convites de todas as partes do mundo, não é por estar aqui que perco oportunidades. Estou aqui por opção… seria impensável o Governo da Coreia do Norte vir buscar um tipo à encosta da serra para dirigir as orquestras…  Mas veio! Eu já estive como conselheiro em coros na China, nos Estados Unidos, na Estónia, na Alemanha… Já fiz concertos em 28 países… Por isso estar aqui não me traz problema nenhum… Até pelo contrário, como compositor tenho aqui uma vida muito mais descansada, não faço duas horas de carro por dia, parecendo que não, temos aqui outras condições de vida que nas grandes cidades não existem, portanto esta opção é muito válida, produzo muito mais, nem sequer se compara.

BEM HAJA - Que conselhos daria aos jovens do interior do País?
MAESTRO LUÍS CIPRIANO - Não devem desistir e devem acreditar na região onde vivem. Até porque se os bons forem embora, vão sempre os “idiotas” vencer. O interior não é um problema geográfico, é um problema intelectual. Alguns raciocínios é que são altamente “interior” não é a região em si. Por isso aos jovens, principalmente aos que têm massa cinzenta, fiquem e lutem pelo que querem, seja na área das artes ou noutra área qualquer.